MEDODOLOGIA DO EXTENSIONISMO RURAL

OS ASPECTOS PSICOLÓGICOS DA METODOLOGIA

Adão de Jesus Ferreira1

Em geral, e com uma praxe bem definida as universidades elaboram sua própria metodologia de difusão tecnológica e transmissão do conhecimento ao meio rural.

Levando em consideração que o destino final da mensagem é o homem do campo, é mister que o aspecto psicológico exerça papel primordial na transmissão do conhecimento.

A Extensão Rural como educação, encontra fundamentos na orientação fenomenológica de Skiner, que considera o homem fonte de todos os atos. O homem age em função de sua autopercepção e aparentemente vive em um mundo subjetivo

O ser humano, desde o início de sua história, deixou marcas mostrando ter tido sempre curiosidade em conhecer a si mesmo, para melhor comunicar-se com o meio externo. Sócrates e Platão apontam o homem direcionado a estes estados fenomenológicos, qual seja; conhecer a sua existência. René Descartes, ao analisar as formas de conhecimento humano, nos dá os pressupostos dos métodos de aprendizagem. Foi exatamente nesse período histórico que o homem volta-se para conhecer algumas de suas propriedades básicas como, sua inteligência, personalidade, motivos, percepções e emoções. O homem então se interroga; “o conhecimento é de origem externa ou interna?“ Ou ainda, será o conhecimento o fruto de uma interação com o meio?

Além de filósofos e psicólogos, houve fisiologistas e físicos que deram sua contribuição para melhor entendimento da mente humana.

É na psicologia que vamos encontrar fundamentos para discernir as formas de assimilar e transmitir o conhecimento.

Para o psicólogo e educador Carl R. Rogers, a psicologia é o estudo da pessoa humana. Isto compreende a percepção, emoções e as diversas formas de manifestação racional. Este considera que a psicologia faz parte das ciências humanas e não das ciências naturais; como sugerem alguns estudiosos.

A maioria dos cientistas que estudam o comportamento humano alinha-se na corrente de ciências naturais, talvez por englobarem psicólogos envolvidos com outros ramos da ciência como; a química, a física e a astronomia. Os não alinhados com essa corrente, são rotulados de dissidentes, por muitos motivos, mas nunca formaram um grupo homogêneo. Um dos primeiros a assumir essa linha foi Abraham Maslow, criando outra corrente de pensamento denominada, terceira força. Mais tarde surge Carl Rogers, grande batalhador em defesa da psicologia humanista. Para Rogers, – referindo-se a ciência biológica – , “a psicologia científica é grosseira, insensível, e superficial”. Diz ainda mais, “a ciência só pode dirigir-se ao que há de trivial e óbvio no comportamento humano deixando assim de fora aqueles aspectos que mais nos interessam – sua unicidade, complexidade e imprevisibilidade”; características próprias e exclusivas do ser humano. Aqui Rogers fala de ciência em um sentido mensurável como, a biologia e a física.

Para os humanistas, os fenômenos como, experiência, sentimentos, significações e humor, são de suma importância na busca do crescimento de cada pessoa.

Convém destacar também a contribuição de Libnitz e Locke, que se dedicaram ao estudo e diferenciação dessas duas correntes. Também foi bastante influente na psicologia moderna, e educacional, Maine de Biran, que desenvolveu uma psicologia dinâmica, procurando encontrar a gênese de autoconsciência no desenvolvimento da criança. De Biran que desenvolveu uma psicologia dinâmica, moderna e educacional, mostrou que o “self”, é um agente experimentador e capaz de registrar sua própria experiência.

Sobre o mesmo tema fala Rollo May, tentando explicar a formação da consciência –“tornamo-nos assim cônscios de nossa própria experiência, como sujeito e como objeto; somos ao mesmo tempo ator e atuado”. Rollo May é psicólogo e dedicou-se também ao estudo da formação da autoconsciência e do surgimento da heurística que continua crescendo procurando sempre atingir um maior refinamento.

Ausubel opondo-se aos argumentos anteriores, escreveu uma refutação intitulada: ao “mais extremados desses teóricos”. Em seu tratado, afirma que a personalidade forma-se por um comportamento individual e a demonstração de mudança acontece cada vez que um fator novo lhe é apresentado. No entanto essas mudanças dependem dos fatores de personalidade e de sua aceitação. Isto não impede que outras variáveis sejam também operativas mas sempre dependendo da aceitação da personalidade. Disto conclui-se que somente fatores de personalidade determinam a mudança.

A contribuição de Dilthey foi de grande valia para o estudo das ciências da mente, para quem a psicologia é como ciência natural, foi muitas vezes instrutiva quando falava a respeito de sensações e seus atributos. Mas nada contribuiu naqueles fenômenos que constituem a essência do ser humano; imaginação criativa, autoconsciência, auto-sacrifício, senso de obrigação, amor, devoção e simpatia.

Segundo Dilthey no campo da psicologia podemos considerar duas ciências, a ciência descritiva, aquela cujas leis são encontradas por verdadeiras análises empíricas, ou seja, aquilo que é dado na experiência e outra, a ciência explicativa, aquela que tira suas leis de uma premissa metodológica, que determina previamente sua natureza geral. Neste caso a premissa nada mais é do que uma mera construção hipotética.

Carl Rogers é outro psicólogo que também está associada à mesma linha de Tilthey, de quem apontamos alguns pontos de vista. Para Rogers, não podemos resolver estes problemas da mente pelo modelo newtoniano, ou seja; por regras fixas ou matemáticas, segundo este cientista, já é questão superada. Precisamos resolver estes questões centrais do cérebro, tratando o ser humano como um todo onde temos que considerar além da armazenagem de memória, outros fenômenos como; razão, amor, a influência do grupo sobre atitudes, as significações de valores no comportamento e outras variáveis no campo da emoção. Em suma, queremos uma ciência psicológica ou ciência comportamental que trate de problemas encontrados no homem inteiro em seu ser subjetivo e objetivo.

Rógers que era psicólogo costumava fazer experiências com seus pacientes, ao contrário de Skinner, que fazia experiências com animais.

Maiores detalhes do trabalho de Rogers, sobre sua contribuição para a educação, trataremos no 3º capítulo.

Dentro dessa abordagem salienta-se uma das figuras mais questionadas no ramo da ciência da educação, B.F.Skinner. Considerado a figura mais influente da Universidade de Harvard, Skinner tornou-se também o cientista mais controvertido, por suas idéias sobre experiências com animais e aplicação dos resultados na psicologia humana.

Skinner escreveu um livro intitulado “Beyond Freedon and Dignity” (Além da liberdade e da dignidade), que provocou indignação entre seus adversários, pela seguinte mensagem: “Não podemos mais dar-nos ao luxo de liberdade e por isso ela deve ser substituída pelo controle sobre o homem, sua conduta e sua cultura”.

Aqui Skinner defende a teoria de que os indivíduos podem ser selecionados e orientados para uma determinada função social. Apesar do impacto de suas idéias, seus métodos ainda são usados por muitos educadores e sua caixa de pesquisa é usada nos laboratórios de psiquiatria. Skinner analisando o comportamento dos indivíduos, concluiu que as conseqüências causadas por um determinado comportamento podem fazer com que esse comportamento ocorra novamente, e que o mesmo pode ser modificado por atitudes compensadoras ou punitivas. Ele procurou mostrar que as ações seguidas por recompensas são fortalecidas e tendem a ser repetidas e as que são seguidas por punições, são enfraquecidas e tendem a diminuir ou desaparecer.

Entre os psicólogos Skinner situa-se na corrente behaviorista, que se caracteriza pelo estudo do comportamento. Corrente iniciada por Pavlov, que tende eliminar qualquer referência à consciência e ao espírito. Em suma, abstraindo tudo aquilo que não poder ser observado e registrado em termos objetivos. Utilizando animais inferiores, Skinner desenvolveu um sistema que ficou conhecido por “caixa de Skinner”, muito utilizada pelos cientistas em seus experimentos de laboratório. Skinner concluiu que os resultados obtidos com animais, também podem ser conseguidos com seres humanos. Assim o comportamento de alunos nas escolas pode ser modelado pelo oferecimento de reforços apropriados

Assim como Pavlov e Skinner, também Thorndike deu início ao processo de conhecimento mensurável. Skinner não nega os processos interiores, mas acha que todos nós somos controlados pelo mundo, parte do qual é construído pelos homens. Sobre a polêmica do seu livro, Skinner acha que o futuro pode ser previsto e o mudo programado.

Devemos salientar alguns tipos de comportamentos descobertos por Skinner, já que eles fazem parte do nosso dia-a-dia. Os comportamentos respondentes são aqueles provenientes de estímulos fisiológicos como, a contração e dilatação das pupilas em resposta a mudança de iluminação; arrepios e lágrimas em momentos característicos. Já os operantes são em maior número e não dependem de estímulo para se produzir, mas produzem efeito no mundo exterior. São desse gênero, o ato de andar, a tacada de golfe, o chute na bola.

Outros tipos de comportamento e detalhes destes apontados serão tratados no 3º capítulo.

2-HISTÓRICO DO EXTENSIONISMO RURAL

A atividade de Extensão Rural teve início nos Estados Unidos, por volta de 1870, quando os agricultores decidiram realizar reuniões para encontrar, em conjunto, soluções para seus problemas. No entanto, no pósguerra que esta atividade foi realizada e realmente estruturada como tal. Em 1914, o Governo Federal Americano encampou esta atividade, e reunindo todas as experiências anteriores, instituiu o “Trabalho Cooperativo de Extensão Rural”(FONSECA 1985). Dentro da análise conceitual dos técnicos americanos, a elevação do nível de conhecimento dos agricultores e seus familiares acarretariam a adoção de novas habilidades em suas atividades produtivas.

Neste período foram criados nos EUA estações de pesquisa para estudo de novas técnicas que depois de comprovadas, eram transmitidas aos agricultores

Segundo FONSECA, foi Everet M. Rogers o mentor dessa idéia, para quem a noção de educação é justamente a capacidade social de se integrar ao meio, oferecendo até mesmo a capacidade de inovar.

Este projeto extensionista, tinha a missão de operar modificações na estrutura social camponesa por meio de medidas que ia desde um trabalho educacional convencional, que prepararia o agricultor e seus familiares a aceitação de novas técnicas e posteriormente a transmissão e difusão dos novos conhecimentos.

No Brasil a Extensão Rural ocorreu também no após guerra, acompanhando esse movimente que se operou no campo social, político, cultural e econômico. Em 1930, influenciados por estes movimentos internacionais, os políticos brasileiros preocuparam-se com a Educação Rural e, por conseguinte também com o extensionismo. Em 1945, com a supervisão do extensionista norte americano, Everett M. Rogers, e o apoio da UNESCO, foi criada a “Comissão Brasileira Americana de Educação das Populações Rurais (ACAR). No entanto, foi somente a partir de 1946 é que foram iniciadas as atividades. Isto ocorreu quando veio ao Brasil, o empresário e assistente do Presidente Roosevelt, dos
Estados Unidos, Nelson Rokfeller, para dar início as atividades programadas junto às comunidades rurais.

No Rio de Janeiro, o emissário norte americano foi sensibilizado ao saber que grande parte dos favelados ali existentes provinha de Minas Gerais, como fruto do êxodo rural daquele estado. Para ele era difícil entender como um estado rico pela sua produção de minérios poderia gerar tanta dificuldade social.

Foi a partir de então que o Brasil passou a contar com o apoio americano para a Extensão Rural, começando exatamente pelo estado de Minas Gerais, portal de entrada do extensionismo rural no nosso país.

O projeto iniciou-se com a mediação da Associação Internacional Americana (AIA). Uma das primeiras iniciativas foi a criação do Plano de Recuperação Econômica e Fomento da Produção. O plano contou inicialmente como o Projeto de Educação Formal (Extra- escolar) ao “caipira mineiro”, ou também chamado de “ensino agrário ambulante”. O projeto incluía educação sanitária e profilaxia rural, compondo a equipe, um médico sanitarista e um enfermeiro (FONSECA 1985).

Fazendo parte do plano, foi criada em 1948 a Associação de Crédito e Assistência Rural (ACAR) , conforme o modelo americano.

Em 1951 a Universidade Rural de Minas Gerais assinou convênio com instituições americanas, incluindo pessoal técnico e apoio financeiro. Ficou como pólo de aplicação e difusão tecnológica, a Escola Agrícola de Viçosa – MG

3- O EXTENSIONISMO E A METODOLOGIA EDUCACIONAL

Primeiramente, vamos analisar a forma metodológica da educação, como a assimilação do conhecimento em sua relação com o meio.

Não esquecendo René Descartes, que tratou do conhecimento como um fato fenomenológico racional, nosso enfoque principal será sobre as duas correntes antagônicas, a defendida por B.F. Skinner (behaviorista), e a defendida por Carl R. Rogers (humanista)

Os educadores modernos, não se associam a nenhuma corrente, mas utilizam formas pedagógicas que melhor atendam a seus propósitos para uma determinada clientela, aproximando-se ora de uma corrente hora de outra.

A proposta metodológica da Extensão Rural como Educação, deve iniciar na faculdade. O comportamento fenomenológico entendido como epistemologia do conhecimento prepara o elemento teórico capaz de assumir a forma empírica. Pois é precisamente na universidade que se opera a escolha do método científico por meio do qual as inovações devam chegar até o campo. O procedimento mental gnosiológico é visto com mais aprofundamento nos laboratórios acadêmicos. A partir dos portões da universidade a transmissão do conhecimento opera-se de forma demonstrativa daquilo que já foi fartamente pesquisado na universidade. Daí por diante o processo cognitivo limita-se a demonstrar as reais vantagens do uso da tecnologia testada nos campos experimentais. No campo prático o que vai garantir o sucesso extensionista, é uma política educacional socializante. Este procedimento é considerado socializante enquanto atende os anseios e necessidades do homem do campo. Segundo alguns críticos, como Paulo Freire para quem a transmissão do conhecimento para o homem do campo só operam-se efetivamente quando for de encontro aos seus anseios – aqui contamos com o procedimento behaviorista mostrando os bons resultados.

Isto quer dizer que uma comunidade a quem pretendemos transmitir o conhecimento deve estar preparada para recebê-lo – neste momento o procedimento é humanista, por lidar com os sentimentos e emoções da clientela.

Segundo a psicologia humanista a aceitação do conhecimento só opera-se quando a personalidade aceita e incorpora este conhecimento, e para tanto o “self” deve estar preparado para aceita-lo. Durante o processo de aceitação o educando (Ruralista) deve vislumbrar uma nova perspectiva de vida – melhoria das condições econômicas e bem-estar. Este estimulante é apresentado pelos behavioristas como um reforço positivo para a aceitação das inovações. Caso as primeiras experiências não sejam favoráveis, o reforço passa a ser negativo ocasionando a falta de estímulo e o possível fracasso dos projetos. Como preparação da clientela pode ser utilizada como reforço, a conscientização de massa, as chamadas campanhas para preparação do espírito de cada indivíduo. Podem ser também utilizadas como reforço positivo, as experiências em que foram obtidos bons resultados e que podem ser apresentadas nos eventos denominados “dia de campo”. A “Demonstração de Resultado”- (DR BRAGA,1999), é um dos vários exemplos que atua favoravelmente no processo aprendizagem. No caso do produtor agrícola, nenhum fato é tão positivo, quanto àquele que opera o resultado final de forma positiva – uma boa colheita e uma boa venda.

Recapitulando a seqüência fenomenológica do processo extensionista, temos que considerar os seguintes fatores: a) uma política agrícola planejada de forma democrática – que leve em consideração as necessidades e desejos dos agricultores; b) a preparação da comunidade alvo: c) o projeto extensionista de transmissão do conhecimento; d) um plano de política de preços e destino final da produção. Não precisa ser psicólogo ou educador para afirmar que um resultado final desfavorável pode enfraquecer ou fracassar qualquer projeto de política agrícola.

4 – BIBLIOGRAFIA

MILHOLLAN, Frank, 1925- Skinner e Rogers – Summus Editorial – São Paulo

FONCECA, Maria Tereza Louzada, 1972 – O Extensionismo Rural no Brasil

BRAGTA, Geraldo Magela, 1995 – Metodologia da Extensão Rural (Apostila da UFV)

FREIRE, Paulo, 1983 – Extensão ou Comunicação – Ed. Paz e Terra- RJ

1 Advogado, Consultor Ambiental, ex. Professor de Direito Ambiental da Universidade do Tocantins – UNITINS, P/ graduado (Especialista ) em Gestão Ambiental p/ UFRJ, p/ graduado (Especialista ) em Meio Ambiente e Desenvolvimento p/ Universidade Federal de Viçosa- MG, Mestre em Extensão Rural e Licenciamento Ambiental p/ Universidade Federal de Viçosa – UFV- MG